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foto: Internet
Casinha Pomerana
Crônica escrita por Orlando Eller

Pomerano levantou-se cedo, madrugada ainda. Abriu janela de duas bandas que dava para o pomar e percebeu entre as fruteiras que os galos já deixavam seus poleiros, disputando em cantares, como em evangelho que doa mais um entre outros belos dias.

Aspirou fundo o ar da aurora benzido do sereno da noite. E descobriu então que o cafezal inteiro esparramado morro acima havia florido, e que dos seus galhos ornados da alvura emanava aroma de esperança diante dos desconhecidos amanhãs.

Não achava que era sua tarefa, mas ajuntou gravetos no fogão e fez fogo. Ferveu água e passou café forte, socado, torrado e moído ali mesmo. Bebeu porção em xícara verde, de esmalte já desbotado. E comeu uma fatia de brôti ungido de banha e sal. Era o pão de fubá misturado a inhame ralado, jeito pomerano de matar a fome manhã cedinho com os filhos à mesa. E a cada dia assim se reproduzia o ritual do desjejum em que a um certo Senhor Jesus estava sempre reservado convite e assento de privilégio à mesa.

Depois saiu, enxada às costas, batendo puída bota trilha afora até beirar o cafezal. E viu que em cada pé entre centenas havia inusitada brancura, floração intensa que contrastava com o verde das folhas. E achou graça de si mesmo, porque havia predito que naquele ano, em razão de prolongada seca, os cafezais pouco produziriam.

Tantas flores em cada galho eram prenúncio de que a safra seria satisfatória para colocar como certeza o sonho de construir uma casinha melhor. E com a mulher começou a imaginar um desenho qualquer, coisa de quatro quartos para acomodar os filhos, salinha, varanda com banco de jequitibá, copa com mesa comprida e bancos para tomar refeições, e cozinha com fogão pintado a barro branco. Tudo feito à moda, em estrutura de gibatão, guaribu, braúna, peroba, enfim, em paredes de tijolo queimado. Mas em telhado de telha francesa, para ser sinal de modernidade.

Mandou derrubar envelhecidas árvores escolhidas a dedo. Uma aqui, outra ali, mata adentro, no morro ou na várzea. Contratou alguns serradores. Pôs toras sobre andaimes e no vaivém das serras afiadas, para cima e para baixo, pacientemente, as toras viraram tábuas, caibros e ripas. E delas também se tiraram pilares, colunas e vigas, como era costume na engenharia da roça.

E pediu então que a mulher escolhesse o lugar da casa, como ela queria; e assim foi, a quase cem metros do córrego, e lá mandou fincar esteios. Em poucas semanas, a nova morada foi tomando aparência e tamanho. E a mulher já a imaginava pintada de branco, circundada como de praxe entre os pomeranos por cerca de réguas, em quintal em que sobrariam flores, entre elas dálias, rosas e açucenas.

Manhã afora e tarde adentro até escurecer, todos os dias em dois meses seguidos, ele foi derriçando o café dos galhos prenhes, em todos os eitos, juntando em montinhos com rastelinho, abanando em peneira de taquara, tirando terra, galhos, pedrinhas e folhas; e, às costas, em sacos pesados, carregava tudo, em paciência, morro abaixo até o terreiro de terra batida, para secar ao sol.

Mas não houve naquele mês sol como seria do agrado dele. Nublado o tempo, chovia fino. E fazia frio naquele alto das matas. No terreiro, entre um e outro céus abertos, o café era espalhado, ou ajuntado às vezes às pressas; e à noite dormia coberto por folhas de bananeira. E só secava devagar, não raramente lhe brotando do amontoado um vapor quente, o que o tornaria ácido por lhe subtrair um pouco da qualidade às vezes já corrompida pela broca.

Recolhido enfim à tulha, aproximou-se dela Manduca com sua tropa de doze mulas e burros forrados de cangalhas e bolsas de couro cru. E ali, embolsada às pressas, a colheita inteira de cento e trinta sacos de café em coco foi levada até a máquina descascadora de um certo fazendeiro, tido rico comprador de cafés e criador de gado nos baixios do rio Doce.

Casinha feita, telhas vermelhas, paredes brancas, terreiro cercado de réguas, café vendido, era então preciso pagar a todos conforme o combinado. Ficara tudo fiado, sob a garantia de pagamento se daria após a venda da safra de café a ser colhida e vendida. E entre seus simples credores estavam serradores, o carpinteiro, a mercearia e o fornecedor das telhas.

O fazendeiro, declarando-se sem dinheiro, teimou em não pagar. E nunca pagou, nem às safras de tantos outros humildes pomeranos da região. Ansiedade, filhos à volta, uma inimaginável lição começava a lhe ensinar que a dignidade perdera o sentido.

E perdera. Foi tão dorido aquele momento que numa noite a mulher dele sonhou um insólito: que abatera seu próprio filho de seis meses, gordinho, para dele tirar gordura de temperar feijão e fritar ovo. E se brôti houvesse, que pudesse então ser untado, talha a talha, com a banha salgada do sacrifício cruel.

Meses a fio, insistentemente, indo e vindo em lombo da mula, em estreitos caminhos por montanha em meio às tabocas, implorou ao fazendeiro que lhe pagasse pelo menos parte do devido para aliviar a humilhação que lhe causavam muitas cobranças.

Depois de cada viagem de algumas horas, em casa nos finais da tarde, queria saber a mulher, sem intenção de provocá-lo, sobre o que já lhe era agonia suficiente:

- Ele lhe deu algum dinheiro?

- Não - respondia enfaticamente.

E ela entendia então que era hora de ficar em silêncio.

Jamais soube que aquele fazendeiro lhe tenha quitado a dívida; nem me disse o credor dela como saldou o que devia pela obra da casinha branca.

Mas me contou que, além desta, outra desventura tivera, com um fazendeiro de barbas grisalhas que dele comprara e jamais pagara mais de uma centena de sacas de café despolpado e quase uma dezena de arrobas de porco engordado.

Aquele pomerano foi meu pai.
Orlando Eller – Jornalista
Crônica do autor
domingo, 21 de julho de 2013

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